O Brasil e o Acordo Climático Mundial

acordo

Em meio a forte turbulência que nossa nave Brasil vive nos dias atuais, há uma macrotendência mundial que as forças políticas e econômicas brasileiras deveriam direcionar grandes esforços com o objetivo de tornar o país um grande protagonista na área da sustentabilidade.

Diz o ditado que, quem chega primeiro bebe água limpa, e assim o país deveria demonstrar ao mundo que realizará todos os esforços para cumprir suas metas estabelecidas no Acordo Climático mundial, elaborando políticas públicas não de governo, mas de Estado.

Em 2015, o Brasil assumiu em Paris cortar em 37% as emissões de gases do efeito estufa até 2025, comparado a 2005. E para 2030 assumiu a intenção de reduzir em 43% as emissões. Para isso, o país se comprometeu a aumentar a participação de bioenergia sustentável na matriz energética para 18% até 2030, restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas, assim como alcançar uma participação de 45% de energias renováveis na composição da matriz energética nesta mesma data.

Antes de assustarmos com os números ou mesmo se perguntar o que cada brasileiro ganhará com isso, convido o leitor a uma reflexão importante. Muitas empresas já reclamaram aos “quatro cantos” da dura legislação, da burocracia e morosidade da área de meio ambiente no Brasil e, nesta hora, sempre nos comparamos com o resto do mundo, para justificar a nossa perda de competitividade.

Por exemplo, que país exige de seus produtores rurais a manutenção de 20% (no mínimo) de sua propriedade como reserva, ou seja, como área não produtiva? Em qual país o empreendedor precisa pagar um percentual do investimento realizado como compensação ambiental?Quantos países podem comemorar em ter mais de 40% da matriz energética composta por recursos renováveis como a nossa?

A questão que se coloca neste momento é como transformar uma série de exigências em valor e diferencial competitivo para nossos produtos no mercado, seja interno ou externo, gerando investimentos, emprego e renda para a  população, captando recursos e financiamentos internacionais.

O Ministério de Meio Ambiente está articulando a elaboração de uma estratégia nacional para  implementação e o financiamento da NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) brasileira. Financiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), foi construído um documento base disponível no site http://www.mma.gov.br/clima/ndc-do-brasil com o  objetivo de subsidiar esta estratégia nacional.

Até o dia 15 de março, o MMA irá receber contribuições da sociedade reunindo o maior número possível de informações para que a melhor estratégia possa ser traçada pelo Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas.

Ainda há um longo caminho a percorrer, mas a preocupação com a sustentabilidade não pode ser deixada de lado, assim como a  necessidade de liderança do país frente a este importante tema no mundo, com o foco na geração de valor aos produtos brasileiros. Ganhará o meio ambiente, ganhará o país e nós brasileiros.

Uma visão diferente sobre a dimensão do setor sucroenergético no Brasil

Normalmente, na apresentação do setor sucroenergético brasileiro, procuramos informar os principais números como faturamento, produção, unidades em funcionamento, total de área plantada de cana de açúcar, colaboradores, posição no ranking mundial, total exportado, seja em unidade de medida ou em divisas. É muito comum, então, encontrarmos um interlocutor que não saberá dimensionar a importância desta atividade na vida dos brasileiros de forma geral.

Vejamos: o total da área de cana no Brasil equivale à soma das áreas dos estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo e, apesar de ser um fato significativo, estamos falando de dois dos menores estados brasileiros e de uma ocupação pouco mais de 10% da área agricultável no país.

Porém, o mesmo não podemos falar da dimensão do produto final do processamento de toda a matéria prima. Com o açúcar produzido nessa safra,  em torno de 37 milhões de toneladas,  é possível adoçar cerca de 1 trilhão de latas de refrigerantes, 7,5 trilhões de cafezinhos ou 221 bilhões de potes de sorvete.

Da mesma forma, com a produção anual brasileira de etanol, cerca de 27,6 bilhões de litros, é possível dar praticamente 100 mil voltas ao mundo com o carro que você tem na garagem. O consumo desta produção, em substituição ao combustível fóssil, leva à mitigação anual de mais de 60 milhões de toneladas de CO2 equivalentes.

agropeu22Outro dado interessante é que o total mitigado com o consumo de etanol equivale ao plantio e cultivo por 20 anos de mais de 432 milhões de árvores. Já pensaram que ao abastecer o veículo com etanol o motorista estaria  plantando árvores?

E a bioeletricidade? O que é isso? Muitos ainda não sabem! Esse é o nome da energia elétrica produzida a partir do bagaço e da palha de cana, ou seja,  é uma energia elétrica com origem na biomassa. Os 20,2 TWh produzidos anualmente e injetados no sistema elétrico nacional equivalem a abastecer por um ano mais de 12 milhões de residências, praticamente três cidades de São Paulo.

Da mesma forma, a energia que você está usando e que te possibilita ler este blog pode estar vindo da biomassa, ou seja, você está plantando mais árvores. Por ano, a bioeletricidade produzida pelo Brasil leva à mitigação de 10 milhões de toneladas de CO2 equivalentes, o mesmo que plantar 71 milhões de árvores cultivando-as por 20 anos.

 

Exportações de açúcar batem recorde em Minas Gerais

Poucos sabem, mas o Estado de Minas Gerais possui uma grande plataforma de exportação de açúcar. Diversas empresas que atuam em Minas têm neste produto seu maior faturamento. Em 2016, o setor sucroenergético apresentou uma importante recuperação, as margens do desastre econômico que o Brasil vive, e o açúcar tem grande participação nesta retomada.

O açúcar foi o maior responsável pelo setor fechar o ano no azul, e os números das exportações do produto comprovam isso. Foram exportadas pelas empresas mineiras mais de 3,21 milhões de toneladas de açúcar em 2016, um aumento de 26% sobre 2015.

Esta foi a maior quantidade de açúcar exportada em um único ano por Minas Gerais. Antes disso, o recorde pertencia ao ano de 2013. O setor também  alcançou o recorde na participação das exportações de açúcar no Brasil, 11,09%. Em 10 anos, a quantidade das exportações mineiras de açúcar cresceram expressivos 150%, fruto dos investimentos que foram realizados.

cu4lz140612

O faturamento com as exportações alcançou em 2016  US$ 1,15 bilhão, cerca de R$ 3,99 bilhões, um crescimento em dólar de 44% sobre 2015. Esta não foi a maior receita em dólar alcançada, pois em 2011 o setor havia atingido US$ 1,29 bilhões.Contudo, o ano de 2016 apresentou recorde de receita em reais. O faturamento médio por tonelada de açúcar cresceu 19% na comparação com 2015, encerrando o ano em cerca de R$ 1.240 / ton.

Em 2016, o açúcar representou 5,22% do total das exportações de Minas Gerais. Em 10 anos, o produto passou de uma participação de 1,76% para o atual número.

 

 

Precisamos ser protagonistas na nova onda mundial

O objetivo de qualquer país é a busca do desenvolvimento econômico e social, com geração de emprego, renda e oportunidades para sua população. Seja de ideologias de esquerda ou de direita, ou até em países com regimes autoritários, esse tema sempre está presente nos discursos de seus líderes.

Depois de anos de discussão, os líderes mundiais chegaram também à conclusão de que o mundo precisava se unir na preocupação com a qualidade de vida das próximas gerações e assinaram em dezembro de 2015 o acordo climático de Paris, que entrará em vigor quase um ano depois com o apoio das grandes potências econômicas mundiais.

Assim, os discursos dos líderes ao redor do mundo incorporaram as ideias de sustentabilidade e todos debaterão formas de lidar com as mudanças climáticas e como o mundo será deixado para as próximas gerações.

Essa nova forma de pensar, agora institucionalizada, chega num momento de grande transformação dos negócios, com a consolidação da era do conhecimento, onde a inovação virou regra e não uma opção para qualquer segmento econômico que pretende crescer. O aparecimento de tecnologias e negócios disruptivos tem balançado as estruturas de segmentos econômicos já consolidados e mudando a forma de gestão ao redor do mundo.

O mundo vive o tempo do empoderamento do consumidor, que cada vez mais tem moldado os rumos dos segmentos econômicos. Os consumidores querem saber o que compõe os alimentos que estão comendo, de onde vêm as roupas que estão vestindo e como todos os bens são produzidos, principalmente como são as relações sociais dentro de cada cadeia econômica e de onde vêm e como são produzidos os insumos.

O Brasil tem um grande potencial de ser protagonista nesta nova onda mundial principalmente porque temos inúmeras possibilidades de produção de energia limpa, setores produtivos já estruturados além de um grande mercado consumidor de mais de 200 milhões de habitantes.

Para que isso possa ocorrer, o país precisa de planejamento e gestão, transformar as ações essenciais para nosso futuro de política de governo em política de Estado, assim estaremos pensando nas novas gerações e caminhando de forma sustentável. O Brasil precisa modificar sua cultura do adiamento, o que gera grandes dificuldades de cumprimentos de metas, o famoso “jeitinho” brasileiro.

Nos países desenvolvidos quando uma meta é estabelecida, em geral os segmentos econômicos procuram se antecipar, no Brasil infelizmente deixa-se tudo para última hora e ainda se trabalha para um adiamento.

O momento que vivemos demonstra que a época do improviso já passou, que as políticas populistas que privilegiam o hoje em detrimento do amanhã demonstraram ineficazes em construir uma nação mais justa e de oportunidades. A responsabilidade politica com a nação levará o país às melhores escolhas, para isso os setores econômicos precisam se organizar e apresentar suas propostas.

A oportunidade para o setor sucroenergético está colocada na sua frente e o setor precisa ser protagonista desta transformação do país, se posicionando como uma das melhores opções.  E esse protagonismo só é possível porque o setor é um grande produtor de energia limpa e renovável, é um grande transformador de energia solar, a partir da cana, em produtos energéticos para a sociedade.

Esse protagonismo é um trabalho de construção, que começa pela montagem e apresentação do discurso, que precisa ser não só somente interessante para as empresas do setor, mas também para toda a sociedade brasileira. Para tal, não é possível pensar somente nos próximos dois anos, mas sim ter uma visão de longo prazo com um planejamento e metas que não pode vir de cima para baixo, nem imposto pelo segmento econômico, mas sim construído a diversas mãos entre setor privado e setor publico, em prol do desenvolvimento econômico sustentável do Brasil.

Dito isso, a construção de uma politica de longo prazo para o setor se dará olhando de forma inteligente para a oferta e demanda e as formas de equilibrá-las nos próximos anos. Não se pode esquecer que o setor é um grande fornecedor de alimentos, e qualquer discussão de política pública não dará certo se não considerar e entender que as usinas brasileiras continuarão a ser o maior fornecedor mundial de açúcar, seja qual for o tamanho do mercado.

Essa é uma premissa importante para qualquer modelo a ser desenvolvido. Sabe-se hoje o tamanho deste mercado, também sabe-se que seu crescimento, se existir, será apenas vegetativo de acordo com o crescimento da população e mudanças de hábitos de consumo.

Do lado da demanda, a preocupação deve ser a manutenção do crescimento do mercado. Indústria que não tem mercado, morre. Vivemos no limiar de uma grande transformação de percepção de consumo onde a energia renovável ganha grande força. O ponto de partida para o setor é demonstrar que possui produtos importantes como as energias solar e eólica, mas muito superiores quando se analisa o conjunto da obra em termos de empregos gerados, interiorização e descentralização de investimentos, além de tecnologia e conteúdo nacional.

A onda do carro híbrido e elétrico passa a não ser mais a preocupação, se mecanismos de incentivos públicos induzirem as indústrias a ofertar híbridos flex, com o conceito 100% verde, e também quando a discussão tecnológica atinge patamares mais elevados como o carro à célula de combustível, um modelo a etanol apresentado pela Nissan nas Olimpíadas do Rio.

O futuro do veículo a combustão é incerto, contudo nos próximos anos o mercado para esses veículos ainda será muito grande. A ANP e o MME já indicaram o grande gap energético de combustíveis que o país terá até 2030. Uma nova organização logística e a mudança das obrigações dos players do mercado, aliado ao fortalecimento do órgão regulador, serão necessárias para manter a segurança do abastecimento.

Mas além de induzir e regular, o governo precisa reconhecer o seu papel para correção das falhas de mercado, exemplificadas neste caso pelo uso de combustíveis fósseis e suas inerentes externalidades negativas. Para isso, a criação de um imposto ambiental é essencial a fim de induzir o uso de energias renováveis e limpas em detrimento da energia fóssil.

No lado da oferta, o primeiro grande desafio é tornar a cana-de-açúcar cada vez mais produtiva, com a aplicação da inovação e da gestão do conhecimento na cultura. Novas variedades, novas formas de plantio, cultivo e controle das pragas, o aperfeiçoamento das práticas agrícolas, da forma de colheita e transporte poderão abrir novas possibilidades para atingir o almejado canavial com produtividade de três dígitos.

Novas formas de produzir precisam ser incentivadas, com criação de mecanismos que incentivem o aumento da escala de produção e a produtividade da agroindústria. O etanol de 2° geração juntamente com o aumento da produção de bioeletricidade a partir de outras fontes além do bagaço, como a palha e o biogás, podem elevar a competitividade e o aspecto sustentável do setor.

Toda essa construção do discurso precisa ser feita sob uma governança comprometida com o objetivo de construir um setor mais competitivo, mais lucrativo e mais sustentável. E para tal, é muito importante que o setor construa o engajamento dos stakeholders e da sociedade a favor deste objetivo, assim conseguirá criar mais valor aos produtos produzidos a partir da cana.

O futuro do setor está nas mãos do próprio setor. O discurso não pode continuar difuso, reflexo dos diversos interesses presentes no segmento, precisa convergir para um caminho comum, aproveitar um governo, que é curto, mas que quer dialogar e deixar sua marca na história brasileira. Precisamos entender que estamos do lado certo da história, porque a busca pela sustentabilidade está moldando os negócios e os investimentos ao redor do mundo.